Circulou na Internet o caso interessante de um padre dos Estados Unidos (veja abaixo o link da notícia). Pe. Mateus Hood, da Arquidiocese de Detroit, descobriu que, quando criança, havia sido batizado invalidamente. O diácono que o batizou não fez uso da fórmula trinitária. Conclusão: inválidas a primeira comunhão, a crisma e a ordenação presbiteral! O indigitado presbítero estadunidense correu a avisar todo o mundo que as missas por ele celebradas eram írritas, bem como as confissões e as confirmações. Pôs em dúvida até mesmo os casamentos aos q uais ass istiu como testemunha qualificada.

            Há três tipos de batismo, a saber: o batismo de água (geralmente infusão), o batismo de sangue e o batismo de desejo. De fato, se uma criança, na tenra idade, morre sem o sacramento do batismo, não se sabe qual é o destino da alma do bebê. O batismo é absolutamente necessário para a salvação (Jo 3, 5). Antigamente, os teólogos falavam em limbo, teoria não totalmente descartada. No último documento da Comissão Teológica Internacional sobre o assunto, transmite-se apenas a ideia de que é preciso confiar na misericórdia divina, pensamento já e xposto n o Catecismo da Igreja Católica (n. 1261). Por isso, o código canônico determina que os pais ou responsáveis providenciem o batizado das criancinhas nas primeiras semanas após o nascimento (cânon 867, §1.º). Neste diapasão, em virtude do isolamento forçado pela pandemia, em outro artigo (veja abaixo o link), sugeri que os bispos autorizassem os fiéis a sopiar (verbo que significa "batizar em casa").

            Relativamente ao batismo de desejo, explana o Catecismo da Igreja Católica que o desejo do batismo acarreta os frutos do batismo, sem ser sacramento (n. 1258). É através desta espécie de batismo que milhões de homens obtêm a salvação, sem aderir oficialmente à Igreja fundada por nosso Senhor. Trata-se da vida que se leva à luz dos ditames insculpidos por Deus em todos os seres humanos. Somente os que têm uso da razão podem ser beneficiados pelo batismo de desejo. No fundo, o chamado batismo de desejo requer muito menos que o desejo do batismo em sentido estrito...

            O batismo de desejo não é sacramento, contudo, o supramencionado catecismo ensina que tal jaez de batismo importa a obtenção dos "frutos do batismo" (n. 1258). Desta feita, pe. Mateus, que sempre quis ser presbítero, diuturnamente envolvido no grêmio da Igreja, possui muito mais que o desejo implícito do batismo, condição para o batismo de desejo.  Os pressupostos mínimos para a salvação, ao menos ele possui! Nada obstante, o problema não é somente este. 

                Surgem as seguintes perguntas canônico-teológicas: os frutos do sacramento do batismo, oriundos do batismo de desejo (espécie de batismo), validariam a recepção dos outros sacramentos, incluindo a ordem?  Para a validade da ordenação, o código canônico exige que o varão seja batizado (cânon 1024). O batismo de desejo não contaria, principalmente numa situação tão inusitada como a desse eclesiástico?  A solução encontrada, qual seja, administrar os sacramentos ao clérigo, ordenando-o "de novo", não foi form alista e legalista? 

Edson Luiz Sampel
Professor da Faculdade de Direito Canônico São Paulo Apóstolo (da Arquidiocese de São Paulo). Autor, entre outros livros, de Elementos de Direito Eclesiástico Brasileiro (LTR).


História do padre Mateus Hood:

https://www.google.com/url?q=https://domtotal.com/noticia/1468233/2020/08/padre-descobre-que-nao-e-sacerdote-por-erro-de-diacono-que-o-batizou/&source=gmail&ust=1599154439332000&usg=AFQjCNGlAhRwNZu3y-5TkK2K6gV_Mx51GQ" style="color: rgb(17, 85, 204);">https://domtotal.com/noticia/1468233/2020/08/padre-descobre-que-nao-e-sacerdote-por-erro-de-diacono-que-o-batizou/

Amantíssimos bispos, não seria a hora de sopiar?

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